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Crónicas da Cidade dos Leões

Um Blog que começou por ser um diário e que cresceu para algo mais. Por aqui os temas vão do desenvolvimento pessoal ao bem estar sempre com dicas e reflexões a propor. Sê bem vindo e se te agrada: segue! :)

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Sab | 09.05.20

Trabalhar num hospital em tempos de pandemia

Nala

Neste blog, apesar de assumir a minha profissão, nunca falei sobre ela e muito menos falei sobre o meu trabalho em hospital. 

Meio que a pedido do Triptofano!, que me me fez a sugestão de escrever sobre a minha experiência em tempos de COVID 19, achei que talvez fosse pertinente partilhá-la convosco.

Quero deixar claro que esta é a minha opinião pessoal e a minha experiência e que poderão ouvir tantos relatos diferentes como o número de pessoas que trabalham em hospitais em todo o Mundo. Ainda para mais a minha realidade é a francesa, cujos números foram muito mais elevados do que os de Portugal e num enorme centro urbano. 

Em primeiro lugar lamento se desiludo alguns mas não vou romantizar as coisas dizendo que sofri como nunca no trabalho. É verdade que houve "tensão", que se assistiram a situações gravíssimas e muito particulares e que o risco de contágio nos meteu medo mas trabalhar num hospital é isso mesmo. 

Já vi coisas verdadeiramente atrozes dentro daquele hospital, já estive em contacto com patologias bastantes graves e onde a proteção necessária é a mesma e já me passaram muitos pacientes pelas mãos que acabaram por morrer. Já massajei e vi massajar gente em paragem cárdio-respiratória, já assisti à colocação de assistências cardiacas em catástrofe e no quarto e colocar doentes de barriga para baixo não é propriamente uma prática "nova". 

Já chorei muitas vezes depois de sair de um quarto ou precipitei o fim da sessão porque as lágrimas me estavam a chegar aos olhos. 

Usar máscara é algo que faço todos os dias desde sempre e praticamente o dia inteiro. A única diferença é que agora a tiro 5 minutos para comer, não bebo água o dia inteiro e uso as famosas FFP2 por mais de 10 horas (coisa que acharia impensável aqui à uns dias). Ainda para mais, por razões de stock, tivemos restrições ao uso de material e não podemos trocar tantas vezes como as recomendadas o que me faz tentar preservar a sua segurança o mais possível não a manipulando nem quando a língua parece cortiça de tanta sede... 

Trabalhar num hospital em tempos de COVID-19 teve como diferença o facto de termos de ser capazes de lidar com as mudanças e as "trocas e baldrocas" necessárias, com a criação dos chamados "serviços de crise" (alguns nem nunca chegaram a abrir), a redução significativa de doentes programados...

Significa discordar das opiniões das hierarquias, assumir um papel de liderança e educação em relação a colegas, pacientes e outros profissionais de saúde e juntar-se aqueles que, tal como nós, procuram melhorar práticas e proteger-se a si e aos seus pacientes o melhor possível. 

Trabalhar em hospital significa que temos de assumir que TODOS os doentes podem ser "portadores sãos" do vírus e não apenas aqueles que têm testes positivos, que temos de ser vigilantes às regras de higiene que conhecemos de côr, porque sempre as usámos. É saber perfeitamente que o ventilador não "cura" ninguém e que o "utilitarismo" na atribuição dos mesmos é uma realidade de antes, durante e depois do COVID. 

Que nem todos os que entram são testados à entrada porque uma urgência vital continua a ser uma urgência vital e que uma intervenção cirúrgica "de vida ou morte" não pode esperar por um resultado laboratorial. 

Significa que lidamos com doentes infetados por inadvertência porque não eram "positivos", com doentes positivos em consciência (e rezando para que os EPIs façam o seu trabalhinho porque, deixemo-nos de tretas, aquilo falha, pode ter defeito e é preciso ter muito cuidado com a sua manipulação porque contaminações por inadvertência acontecem) e sem direito a crises de pânico nem a coisa que o valha. Trabalho é trabalho e têm de ser feito!

É ter muito medo por ver "o comum dos mortais" a usar uma máscara, muitas vezes mal posta e manipulada sem cuidado, ou ver pessoas com luvas de nitrilo a esfregarem os olhos e o nariz porque se sentem protegidas quando só estão a fazer asneiras e não há nada que substitua uma boa lavagem das mãos. Nem vamos falar da utilização da solução hidro-alcoolíca... 

É ouvir vozes indignadas porque "não ouviste a explicação sobre as máscaras que eles deram na televisão?" e o ainda mais irritante "mas a sério que ainda vais trabalhar?!" como se tivessemos escolha. 

Trabalhar num hospital nesta altura é conhecer "montes" de gente infetada, é desconhecer o conceito de "quarentena" (senão já não havia ninguém por lá...), é ter medo de infetar a família mas ao mesmo tempo apreciar o tempo passado em casa mais do que nunca e ter dias de maldizer, em voz baixa, as pessoas que se queixam de estar em teletrabalho e que têm ataques de pânico por ter de ir ao supermercado...

É estudar e estudar para se saber como intervir da melhor forma possível minimizando os riscos da intervenção (em fisioterapia respiratória uma boa parte da nossa intervenção é passível de gerar os tão temidos aerossóis seja pela manipulação de oxigénio, pelos mecanismos de ventilação ou pelo simples facto de fazer um doente soprar).

É contar anedotas parvas sobre o assunto, tirar um doutoramento em piadas de gosto duvidoso e achar "falta de chá" quem se indigna com este tipo de graçolas através das redes sociais e no conforto do sofá da sala...

É ter o coração apertadinho por ouvir histórias de solidão de quem está internado há muitos dias, de quem acabou de fazer uma operação muito pesada e que precisa do apoio da família mais do que nunca e que têm de se conformar com um quarto de hospital e com os profissionais que estão em condições de o ouvir, a ele e a todos os outros. 

É compreender que a solidão mata mais do que o vírus e achar que devia ser dado à "pessoa de risco" o direito de escolher se quer correr riscos ou não. 

É cruzar a única pessoa que pode vir despedir-se do seu familiar que está a dar o último suspiro numa cama de cuidados intensivos (se ele não for positivo no teste, claro). 

Ser profissional de saúde é ter de "levar" com o medo de ficar infetado dos seus amigos, especialmente aqueles que acham que correm perigo de vida só de vir à janela. É já não poder ouvir falar dos dados da DGS, dos vizinhos que estão na rua ou da Tia Maria que não respeita o confinamento.

É sentir que todos acham que estamos em segurança porque temos material de proteção e sabemos exatamente ao que vamos, o que garanto-vos, nem sempre é verdade. É ter medo de perceber que aqueles de quem gostamos são os que têm mais medo da nossa presença. 

É ver as pessoas a fazerem "passeios higiénicos" e sentir-se um criminoso por ter vontade de fazer o mesmo porque nós, no decorrer das nossas obrigações profissionais e porque não podemos ficar em casa, estivemos em contacto com pessoas infetadas.

É ouvir as "palmas" às oito da noite mas também histórias de gente que foi ameaçada para sair de casa pelos vizinhos que têm medo de ficar infetados por tocar a mesma maçaneta de porta ou obrigada a deixar a casa onde vive com os pais por exigência dos irmãos e ver-se na rua sem ter um teto para onde ir mas com uma profissão de enfermeiro para enfrentar.

É também ouvir histórias agradáveis de gente solidária (porque as há) e receber mais miminhos do que nunca. 

É medir a temperatura três vezes ao dia só porque sim, já ter tido todos os sintomas e mais alguns  da doença e depois perceber que são apenas fruto da nossa imaginação... 

É perceber que, apesar de tudo a vida têm de continuar e as pessoas continuam a morrer de outras coisas e é colocar-se as perguntas do género "mas se normalmente temos os serviços cheios de outras coisas igualmente graves e até mais vitais onde estão essas pessoas agora?" e é ver uma unidade COVID fechar e, em menos de 24 horas, essas mesma unidade encher-se novamente de enfartes do miocárdio, paragens cardio-respiratórias ou síndromas respiratórios agudos (não relacionados com a COVID 19) e é colocar-se ainda mais questões... 

É ter medo pelo desconfinamento mas também dos problemas de saúde mental que já começam a surgir, pelas pessoas que recusam operações com graus de urgência elevados porque têm medo de "apanhar o bicho" e desconfiar que há muita gente que não procura assistência por receio e acaba por piorar uma situação que, se tivesse sido diagnosticada a tempo, poderia não ter sido tão grave ou mesmo fatal. 

É prometer a si mesmo que, se um dia um filho nos diz que quer ser médico, fisioterapeuta ou enfermeiro, os iremos proibir de seguir essa via, chegando ao ponto de os trancar num quarto se for preciso. 

É saber que, tal como todas outras doenças mortais mas das quais pouco se fala, esta continuará a fazer parte da nossa realidade mesmo quando deixar de fazer parte da realidade de todos os outros... E mesmo assim seguir em frente porque, com vírus ou sem ele, a vida deve continuar!

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Photo by Daan Stevens on Unsplash

 

 

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